Casamento

“Eles não têm mais vinho.” As primeiras palavras de Maria no Evangelho de João parecem uma emergência de bufê, bem no meio de um casamento em Caná. Jesus transforma a água em vinho, e o evangelista anota que foi o primeiro dos seus sinais. Há algo de alegre nessa escolha: a vida pública de Cristo começa numa festa de casamento. No teclado, o emoji de casamento se resume a 💒, 💍, 👰 e 🤵, o que cobre a cerimônia, mas não exatamente o sacramento.

Porque tem um detalhe que muito convidado não sabe: na Igreja latina, não é o padre nem o diácono que casa os noivos. São os próprios noivos que se casam, ao trocar o consentimento; o ministro recebe esse consentimento em nome da Igreja e abençoa as alianças. Os noivos dizem o seu “sim” diante das testemunhas, e no Brasil elas costumam ser muitas: fila de padrinhos no altar, e depois festa com bem-casado para levar para casa.

Duas alianças sobre um livro aberto, mãos unidas sob a estola, uma talha de Caná transbordando: proponha o emoji que vai dizer “casamos na igreja” para quem não pôde ir. A tia chorando no primeiro banco é opcional.

Quem desiste de amar condena a si mesmo à solidão.

— Sermões de um padre de aldeia
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